A Sombra das Rodas (parte 1)



    Tinha esquecido os óculos escuros em casa, a muito não precisava dele. Mas a leve dor que incomodava o olhar não demorou a passar e logo pôde olhar as árvores sem fazer caretas. Realmente era relaxante ver a rua passar por ele sem mover as rodas de sua cadeira com os braços. Repousados no colo os únicos movimentos eram dos dedões que se contornavam acima dos dedos entrelaçados. Ele constatou o que o amigo sempre dizia. As ruas da cidade sempre ficam vazias nos feriados, nem mesmo o céu limpo e o calor fora de época são capazes de incentivar o passeio. Mas ele tanto insistiu... Pensou em dispensar a ajuda do amigo que o empurrava ao perceber as dificuldades impostas pela calçada irregular e esburacada,  contudo sabia que aquele esforço era um afago determinado. Mas até os grandes amigos se cansam, foi então que Tonho decidiu já mudando o curso pela tangente da esquina:

    -Há! Vamos pelo meio da rua mesmo.

    -O que?! Não! Não é prudente!

    Após a decida desengonçada do meio fio, o amigo agora o empurrava bem pelo meio da rua. Incomodado em ver as faixas de demarcação passando exatamente entre as rodas ele retrucava sem êxito. O asfalto da rua permitia maior velocidade, menor resistência. As rodas com pouca lubrificação entoavam uma rangedeira ritmada. Com o sol à direita, agora podia ver sua sombra alongada sem obstáculos, sem paredes no espaço em plena rua. Percebeu então a oval nítida das rodas da cadeira projetada no asfalto, e que deste modo podia ver também o amigo gesticular enquanto falava asneiras através de sua sombra sem precisar volver a cabeça numa posição incômoda. Na mudança para um assunto mais sério Tonho lhe perguntou:

-Me preocupo com você Zico, não se diverte mais, está apático. À quanto tempo não se diverte?

Ainda olhando para o lado, vendo a sombra das rodas, respondeu sem ânimo:

-Não sei, não tenho tido vontade de sair ultimamente.

    Tinha adquirido pavor à imprudência, não saia de casa à meses. Depois do acidente que lhe deixara sentado sobre rodas passava os dias vendo TV ou navegando na internete. Ainda respondendo, passou a explicar a Tonho que descobriu uma vocação para a leitura e para o desenho, coisa que não fazia antes do acidente, ler. Enquanto falava do livro que estava terminando deixou de olhar a sombra da cadeira e notou que seguindo a rua em que estavam, duas quadras adiante, havia uma ladeira. De olhar ressabiado, falando mais pausadamente ele ainda explicava sobre o enredo, sobre sua curiosidade de saber quem matou a vítima, sobre o gosto por romances policiais... E cada vez mais rápido ele via a ladeira no final da rua aproximar-se. Foi então que interrompeu o assunto para perguntar em tom irônico:

-Tonho, você não vai me empurrar ladeira abaixo vai?

    Ele confiava no amigo, era apenas uma pergunta retórica. E quando esperava um não como resposta sentiu as costas colarem no encosto da cadeira. O amigo dava ainda mais impulso. Um urro saiu inconsciente enquanto segurava firme nos braços da cadeira. Então teve a certeza quando o amigo respondeu:

-Pois trate de se segurar que aí vamos noooooooooooooooo.......

    E desceram a ladeira juntos. Tonho equilibrava-se abraçado ao amigo com os pés apoiados na barra de ferro que sustentava as rodas. E logo a ladeira não parecia tão íngreme. Do urro surgiu a gargalhada em relembrar uma sensação poderosa que lhe proporcionavam as pernas. Correr. E correr sem preocupar-se em parar. Parar! E no mesmo instante Zico lembrou-se das desvantagens das rodas em relação às pernas. Parar!

-Tonho, freia!

-O que?!

-Freeeeiiiiiaaaaaaa!



Escrito por Homem-Catraca às 09h46
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   A sombra das Rodas(parte 2)

    No fim da ladeira, um cruzamento movimentado. Um apito estridente soou. A linha do trem também passava pelo cruzamento. Por mais que Tonho tivesse percebido a besteira que fez e quisesse frear, naquela velocidade não poderia. Estavam descendo rápido demais. O tombo era certo. Tonho, ateu cético, começava a rezar. Apontando no cruzamento Tonho fechou os olhos enquanto Zico arregalava. O que Tonho não pôde enxergar, Zico viu muito bem. Os carros freando e rabeando, o trem se aproximando numa lentidão irreal, pessoas xingando das janelas dos carros.

-Seus malucos.

-Paraplégico retardado.

    Num solavanco no relevo irregular dos trilhos a cadeira perdeu aderência ao asfalto. Para quem não andava a muito tempo voar era uma coisa um tanto exagerada. Mas eles voaram, Zico, Tonho e a cadeira. Um salto de 7 metros. Os pedestres olhavam embasbacados dois marmanjos equilibrados numa cadeira esboçando um rasante sobre um cruzamento perigoso.

    Num tranco aterrissaram perto do meio fio do outro lado do cruzamento. Uma aterrissagem desengonçada, de banda a cadeira ainda percorreu uma curta distância até tombar já sem velocidade. Somente no caído no chão Tonho abriu os olhos. A primeira coisa que viu: Zico sentado no meio fio, mirando a cadeira, caindo em gargalhadas. Com o coração descompassado, sem entender muito bem, procurou arranhões, escoriações, fraturas no corpo de Zico. Não achou nada.

-Zico, Você está legal.

- Estou ótimo. Respondeu Zico ainda gargalhando.

    Tirando a sujeira das calças, Tonho levantou, ergueu a cadeira na calçada e ajudou seu amigo a sentar-se nela enquanto Zico tentava controlar-se a parar de rir. Mais alguns tapas nos fundilhos e voltou a empurrar Zico pela calçada com semblante envergonhado enquanto Zico não conseguia tirar o sorriso da face. Um silêncio entre os dois perdurou até a próxima esquina, até o próximo cruzamento, que apesar de deserto, Tonho teve toda a cautela do mundo para atravessar. Do outro lado da rua Tonho quebra o silêncio e diz:

-Desculpa Zico.

-Tudo bem Tonho.

-Não... Não está tudo bem. Eu quase nos matei. Tivemos muita sorte.

-Não esquenta.

-É sério... Você me desculpa?

-Humm, com uma condição. Disse Zico em tom jocoso. -Quero que me leve ao parque, só que... pelo meio da rua.

-Não senhor! De jeito nenhum, você tinha razão em ser prudente...

-Se, a ladeira foi um exagero, não aproveitar um feriado com ruas desertas também o é.

Tonho calou-se pensativo e Zico insistiu com um sorriso sereno.

-Tonho, me leva pelo meio da rua, quero ver a sombra das minhas rodas.

E Tonho assim o fez.




Escrito por Homem-Catraca às 09h45
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