A sombra das Rodas(parte 2)
No fim da ladeira, um cruzamento movimentado. Um apito estridente soou. A linha do trem também passava pelo cruzamento. Por mais que Tonho tivesse percebido a besteira que fez e quisesse frear, naquela velocidade não poderia. Estavam descendo rápido demais. O tombo era certo. Tonho, ateu cético, começava a rezar. Apontando no cruzamento Tonho fechou os olhos enquanto Zico arregalava. O que Tonho não pôde enxergar, Zico viu muito bem. Os carros freando e rabeando, o trem se aproximando numa lentidão irreal, pessoas xingando das janelas dos carros.
-Seus malucos.
-Paraplégico retardado.
Num solavanco no relevo irregular dos trilhos a cadeira perdeu aderência ao asfalto. Para quem não andava a muito tempo voar era uma coisa um tanto exagerada. Mas eles voaram, Zico, Tonho e a cadeira. Um salto de 7 metros. Os pedestres olhavam embasbacados dois marmanjos equilibrados numa cadeira esboçando um rasante sobre um cruzamento perigoso.
Num tranco aterrissaram perto do meio fio do outro lado do cruzamento. Uma aterrissagem desengonçada, de banda a cadeira ainda percorreu uma curta distância até tombar já sem velocidade. Somente no caído no chão Tonho abriu os olhos. A primeira coisa que viu: Zico sentado no meio fio, mirando a cadeira, caindo em gargalhadas. Com o coração descompassado, sem entender muito bem, procurou arranhões, escoriações, fraturas no corpo de Zico. Não achou nada.
-Zico, Você está legal.
- Estou ótimo. Respondeu Zico ainda gargalhando.
Tirando a sujeira das calças, Tonho levantou, ergueu a cadeira na calçada e ajudou seu amigo a sentar-se nela enquanto Zico tentava controlar-se a parar de rir. Mais alguns tapas nos fundilhos e voltou a empurrar Zico pela calçada com semblante envergonhado enquanto Zico não conseguia tirar o sorriso da face. Um silêncio entre os dois perdurou até a próxima esquina, até o próximo cruzamento, que apesar de deserto, Tonho teve toda a cautela do mundo para atravessar. Do outro lado da rua Tonho quebra o silêncio e diz:
-Desculpa Zico.
-Tudo bem Tonho.
-Não... Não está tudo bem. Eu quase nos matei. Tivemos muita sorte.
-Não esquenta.
-É sério... Você me desculpa?
-Humm, com uma condição. Disse Zico em tom jocoso. -Quero que me leve ao parque, só que... pelo meio da rua.
-Não senhor! De jeito nenhum, você tinha razão em ser prudente...
-Se, a ladeira foi um exagero, não aproveitar um feriado com ruas desertas também o é.
Tonho calou-se pensativo e Zico insistiu com um sorriso sereno.
-Tonho, me leva pelo meio da rua, quero ver a sombra das minhas rodas.
E Tonho assim o fez.
Escrito por Homem-Catraca às 09h45
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