Sempre morri de vontade de sabotar os trios elétricos ligando um hiper-ultra-super-auto-falante no topo do farol da barra ao som de “O Guarani” para injetar cultura na mente desses foliões. Nesse ano minha intolerância ao carnaval se desfez em parte. Não aceitar o carnaval baiano como elemento importante à cultura nacional era realmente intolerância burra. Mas ainda sou da opinião que a esmagadora maioria dos blocos e trios atuais têm maior preocupação com o lucro turístico que com a cultura.
Como criticar essa política de pão e circo, como criticar o abuso de todas as atividades espúrias que tomamos conhecimento se simplesmente nos esquecemos do mundo durante o carnaval? Não quero dizer que o simples fato de curtir o carnaval seja uma atitude universal de consentimento a todas... a todaaaaaaas... a todas as MERDAS que acontecem no país (desculpem, sei que outros termos existem mas acho este o mais apropriado neste momento). Quero apenas esclarecer o porquê da minha decisão de participar do Afoxé Filhos de Gandhi.
Não me sentiria bem em curtir meu carnaval em um bloco qualquer com o intuito simples de beijar mais de dez mulheres por dia após tantos textos criticando atitudes irresponsáveis, anticulturais e violentas. Mas também não queria passar vontade, não me interpretem mal, mas o carnaval da Bahia é tentador demais. A vontade de participar da festividade é imensa.
O Afoxé Filhos de Gandhi surgiu a mais de 50 anos formado por um grupo de estivadores que, ao saber da morte de Gandhi, resolveu homenagear o líder pacifista. O bloco é responsável por um dos momentos mais bonitos do carnaval de Salvador, quando transforma as avenidas em um imenso tapete branco simbolizando a paz. Desde então os Filhos de Gandhi representam a persistência da luta pacífica no carnaval através do símbolo de Mohandas Karamchand Gandhi, também chamado de Mahatma Gandhi (Mahatma significa "grande alma"). Ele foi o líder pacifista indiano criador do método da resistência passiva através da não violência como forma de “luta”. Foi também personagem crucial no processo de independência da Índia que até então era colônia britânica. Na minha opinião, Mahatma Gandhi é o grande homem dos séculos XX e XXI, pois suas idéias ainda se fazem necessárias atualmente quando a violência é alimentada e cultuada por muitas culturas.
Bom... Como nunca consegui pôr em prática meu plano maligno (ou benigno...quem sabe?) do super auto-falante, e como fui incapaz de conceber um outro plano mais prático, só me restou a opção de aderir á essa resistência pacífica e divulgar um pouco sobre o Afoxé Filhos de Gandhi para curtir meu carnaval de consciência tranqüila. Carnaval sim, putaria não. Amor sim, guerra NÂO.