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LIBERDADE ESTÁTICA

LIBERDADE ESTÁTICA
Todo mundo precisa de um tempo para pensar. Parar, refletir. Não precisa ser muito, não é a quantidade de tempo que importa e sim a qualidade. Refiro-me ao estado emocional em que a pessoa se encontra no momento. O ambiente também ajuda muito. Novos ares, novas paisagens algumas vezes até proporcionam certos lampejos de reflexão.
Essas semanas fora de Salvador se passaram repletas de meditação. Porém o “click”, o estalo, o momento em que parei para pensar, aconteceu durante o percurso da viajem para Aracaju. Descrevo como estalo porque foi realmente muito breve. Tão rápido quanto um poste de estrada que se apresenta no horizonte parecendo se aproximar devagar e, sem mais nem menos, percebermos que já o ultrapassamos. Um momento tão rápido que, se não tivesse a sorte de ter a máquina fotográfica em mãos, nunca mais lembraria daquela sensação, daquela “revelação”.Congelar aquele momento da viagem numa foto foi como capturar uma nova compreensão sobre certas coisas.
Passei boa parte de minha vida indo e vindo nesta mesma estrada de Salvador para Aracaju. Final de ano, São João, férias escolares, rever a família, formaturas, casamentos, rever a família, o falecimento de meu pai, festejos natalinos, carnaval, rever a família, obrigações, intimações judiciais, rever a família... Ainda criança eu viajava insatisfeito na companhia de meus pais. Outras vezes viajei com satisfação, sozinho. Noutras, sozinho e insatisfeito. Nesta... Depois de tantas... Já não sei mais. Ir e vir tantas vezes... Mas nada comparado às idas e vindas desta senhora de sombrinha. Quantos quilômetros diários ela já não teria percorrido por coisas corriqueiras como um quilo de arroz ou uma ligação do telefone público à beira da estrada?
A gente cresce aprendendo o quanto o homem lutou pela liberdade de ir e vir. Que a liberdade, durante muito tempo, vem sendo valorizada pelos seres humanos. E durante todo esse tempo muitos tentam definir o significado dessa palavra, embora todo mundo consiga compreender perfeitamente o que é. Sempre me perguntei: Pra-quê ex-pli-car o que to-do mun-do en-ten-de?
É que, de vez em quando, a gente esquece os meandres, as sutilezas da liberdade. Ser livre não é exatamente poder ir e vir, viajar, caminhar pelo mundo. A ficha só cai quando nós queremos permanecer no mesmo lugar e não somos livres pra escolher onde ou quando queremos parar. Todos nós somos obrigados a permanecer em movimento. Alguns se esquecem ou nem percebem porque, como eu, possuem carro ou outras facilidades de locomoção. Outros, como esta senhora, não conseguem esquecer porque andam a pé. A grande maioria... sem sombrinha.
Escrito por Mafalda e Homem-Catraca às 22h14
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