Feliz 2006



Escrito por Mafalda e Homem-Catraca às 19h22
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   A MISSA DAS SEIS

 



Trazia no banco do passageiro um balaio, 7 colares de contas, um frasco de perfume de alfazema e meia dúzia de rosas brancas. Com a atenção fixa no trânsito ainda não havia reparado que estava próximo ao Rio Vermelho. Estava na cidade à apenas um dia e faria sua oferenda antes de toda aquela confusão de ano novo. Faria e evitaria muita dor de cabeça se não fosse um golpe do destino...

Escutava mpb no rádio tamborilando com os dedos no volante. No balançar despretensioso de cabeça demorou a perceber a luz avermelhada no retrovisor. O relâmpago da lembrança de seu passado quase o fez pegar a tangente da curva. Os pneus cantaram, as buzinas começaram a reclamar atrás do carro logo após a freada brusca. O balaio foi parar no assoalho do carro, as contas jogadas, algumas rosas ainda restavam em cima do banco. Com o coração descompassado olhou para trás e viu o estrago. Havia causado um pequeno engarrafamento. Mais um entre tantos engarrafamentos no Largo do Rio Vermelho... Pensou: não há de ser nada. Com o antebraço enxugou o suor nervoso da testa, engatou a primeira e seguiu devagar procurando um local para estacionar, para acalmar-se, para conferir o que havia visto pelo retrovisor. Achou uma pequena vaga no movimentado trecho da Praia da Preguiça. Desligou o motor e ponderou em voz alta:

- Carrego os apetrechos? O sol já vai se pôr. Com este trânsito não vou conseguir chegar até Ondina a tempo. Melhor seria continuar com o plano. Cato as contas do chão, arrumo minhas oferendas no balaio e entrego para Yemanjá antes do sol se pôr. Mas aquela luz... Não. Eu preciso verificar. 

Desde o susto tivera que percorrer uma boa distância de carro para achar uma vaga. Sabia que o caminho de volta até o Largo do Rio Vermelho seria um pequeno passeio. O que ele não imaginava é que, carregando balaio, rosas, alfazema, os colares de contas e o molho de chaves, faria desse passeio um leve calvário. Seguia compassado com o tilintar irritante das chaves no bolso folgado. Balaio embaixo do braço, a alfazema escorada nas rosas, as contas penduradas...

 

-Droga!

Tinha deixado cair um dos colares na calçada. Agachou equilibrando o balaio na lateral do corpo praguejando ainda mais. Com um dos joelhos apoiados na calçada apanhou o colar e lembrou-se novamente daquela luz. O ano era 1977, início de sua puberdade. Costumava acompanhar sua mãe até a igreja do Largo do Rio Vermelho para a missa das seis da tarde. Saia de casa com ela lá pelas cinco e meia, deixava-a na porta da igreja e, com a desculpa de não suportar o sermão do padre, ia assistir ao pôr do sol nas muretas do Rio Vermelho. Sua mãe permitia sempre depois de um resmungo ou dois.

(continua...)



Escrito por Mafalda e Homem-Catraca às 03h45
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Certa vez ouviu dizer que defronte ao largo funcionava uma “casa de entretenimento adulto”. Sabendo disso ele passou a aproveitar o tempo da missa fitando as belas moças preparando-se para a “função”. Acostumou-se a vê-las entrar e sair do estabelecimento. Algumas penteavam os cabelos em frente à janela. Naquela época as casas não tinham grades nem muros altos, de modo que qualquer pedestre podia contemplar aquele espetáculo. Bom, para um garoto de 13 anos uma mulher da vida penteando-se em trajes íntimos na janela era um espetáculo. 

Ergueu o joelho do chão com o colar em mãos e lembrou-se que foi num entardecer como este, meio nublado com ventos fortes, que ele avistou a mulher mais linda que já tivera visto na vida. Nunca esquecera aquela visão. Ela vinha da direção do mercado, cestinha de pão numa mão, uma das mechas do cabelo na outra. Caminhava arrastando as sandálias enquanto enrolava as mechas. Calma, como quem cantarola uma cantiga de roda. Deveria ser cinco ou seis anos mais velha que ele.  Acompanhou com o olhar aquela beleza até a entrada do puteiro. Lembrou de ter se voltado para a igreja para agradecer a Nosso Senhor por não ser cego. No dia seguinte agradeceu por ela comprar pão sempre no horário da missa. No terceiro fez a promessa: se ela algum dia olhasse para ele, entraria na igreja e assistiria uma missa inteira. Dia após dia passou a admirá-la, idolatra-la.  

De pé continuou seu caminho até o largo. O sol já não aquecia tanto, já conseguia ver a Igrejinha do Rio Vermelho, Via as canoas presas a rebolar nas marolas. Ele era capaz de enxergar o Largo, mas seu olhar, perdido em suas lembranças, transformava a paisagem. O que ele via era o Largo de 1977. Engraçado, mas as canoas eram as mesmas, assim como aquela luz vermelha na parede da entrada do estabelecimento.

Mas ele sabia que não poderia ser a mesma lâmpada, estava lá quando a quebraram com um pedregulho. Sim! Havia se lembrado! Realmente não poderia ser a mesma. A caminhada refrescava cada vez mais sua memória. Lembrou que uma das beatas amigas de sua mãe tinha se envolvido num bate-boca com uma das putas. Não demorou muito até o bando de carolas tomarem partido na briga, inclusive sua mãe. Logo outras putas vieram engrossar o caldo da confusão no meio do Largo. Lembrou de estar perto á baiana que vendia acarajé quando percebeu o tumulto se formar em frente ao puteiro. Beatas de bengalas e putas de sombrinhas se xingavam, se pegavam, se estapeavam, davam “sombrinhadas” e bengaladas”, puxavam os cabelos... Partiu em direção a confusão para resgatar sua mãe. A aglomeração aumentava, e ele já no meio do bolo não conseguiu perceber que sua adorada estava metida no bafafá.

(continua...)



Escrito por Mafalda e Homem-Catraca às 03h45
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Uma das beatas catou um paralelepípedo solto no chão e com dificuldade arremessou em direção à porta do estabelecimento. O pedregulho acertou em cheio a lâmpada vermelha ao lado da porta. O barulho e os estilhaços fizeram a tropa das putas em guerra dispersar. Foi então que viu sua adorada descabelada, sem a sandália em um dos pés, com a alça do vestido caído, atirando os pães que trazia na cesta contra as beatas. Injustiça! Pães contra pedregulhos. Novamente o barulho de estilhaços, outro pedregulho havia acertado a janela do puteiro. Logo depois outro foi arremessado, este acertou a parede e resvalou no rosto daquela bela mulher. Sua adorada havia tombado no meio da guerra que se formara. Ela não tinha ficado inconsciente, talvez após atingir a parede o pedregulho tivesse perdido a força. Mesmo assim, foi forte o suficiente para derruba-la abrindo um corte profundo em seu rosto. 

Lembrou que ficou paralisado, com o coração na mão. Não sabia o nome dela para poder gritar, para expressar sua preocupação. Ela estava lá caída, apoiada nos cotovelos, cabelos jogados para frente, despenteados e ele não se atrevia a atravessar o largo, não se atrevia a passar para o “campo inimigo” não com sua mãe na batalha. Foi então que aconteceu. Ele percebeu a cabeça dela erguer-se vagarosamente, estava bem na direção dela, viu seu lindo rosto lavado em sangue erguer-se em sua direção, e, por um breve instante seus olhos e os dela se conectaram. Passaram a se olhar como se não houvesse ninguém em volta. No rosto dela ele percebeu indignação e dor, no rosto dele ela percebeu o mesmo e algo mais... Uma lágrima. Na época ele não era criança o suficiente para temer a guerra formada e também não era homem suficiente para segurar a lagrima que corria desmascarando seus sentimentos no meio daquilo tudo. Naquela época dizia-se muito: “homem não chora”. Bobagem. 

A galhofa terminou tão rápido quanto começou. As sirenes da polícia aproximavam-se do largo. Ele viu sua

adorada sendo ajudada por uma amiga a levantar-se do chão e, logo em seguida, sentiu um puxão no braço. Era sua mãe que o arrastava para dentro da igreja. Naquele dia ele assistiu a missa até o fim. No dia seguinte também. Ficou sabendo que o estabelecimento havia fechado por causa daquela confusão. As pessoas comentavam: “Quem já se viu... uma casa de má fama em frente à casa de Deus!!! Sacrilégio!”. Nunca mais viu sua adorada, nem sequer ouviu notícias do funcionamento do estabelecimento em outro local. Passara sua vida sem contar a ninguém sobre esse amor impossível, sem esperança de vê-la até hoje. Hoje tinha visto aquela lâmpada acesa novamente.  

Toda aquela volta ao passado o fez caminhar até o Largo sem se dar conta da distância que percorria. Um piscar de olhos, e estava no Largo do Rio Vermelho. A luz vermelha estava à sua frente, a igrejinha à sua direita, o mar à suas costas e toda a ansiedade do mundo ao seu redor junto com a maresia. O mesmo tom alaranjado nas paredes, as soleiras pintadas de branco, exatamente como a trinta anos atrás. Alguém responsável pela restauração do imóvel se lembrara do passado assim como ele. Só uma modificação, uma placa: “restaurante da Dinda”, pendurada acima da porta fechada. Decidiu entrar, arriscou a maçaneta. Aberta! Entrou no estabelecimento pela primeira vez na vida. Seus olhos percorreram a parede decorada, as mesas arrumadas. Imaginou se estariam exatamente como a trinta anos, nunca tivera conhecido o interior. Não teria como saber se estava igual ou não. Resolveu perguntar. Em direção ao caixa notou um relógio antigo na parede que apontava cinco e meia da tarde. Cedo demais para clientela, pensou. Tocou a sineta do balcão: Plimmmm. Silêncio. Passos...

-          Desculpe ainda estamos fechados.

 

Aquela voz feminina que se aproximava por detrás da cortina de sementes de dendê logo revelou sua dona.  Ela saiu da porta da cozinha afastando a cortina com as mãos. Uma mulher madura cujas marcas do tempo só conferiram beleza e sabedoria ao rosto. Exceto pela cicatriz, uma cicatriz acima do olho direito. Ele arriou o balaio em cima do balcão. Era ela. Tinha certeza, era ela. Ela o olhou nos olhos como se não o conhecesse e neles viu a mesma dor e a mesma indignação que um dia sentira no passado. Ela o reconheceu, mas não tinha certeza. Durante aquele momento suspenso e delgado eles se olharam. Observaram um ao outro por tempo suficiente para uma lágrima se formar nos cantos dos olhos de cada um. E nele a lágrima desceu. O silêncio delicado cessou com o som do sino da igrejinha do Rio Vermelho chamando os fieis para a missa das seis. Ela sorriu. Ele também. Nenhuma palavra. Ele retirou uma rosa branca do balaio e entregou a ela. Ela pegou, cheirou e disse:

 

-          Você conhece meu passado. O que quer comigo?

Ele respirou fundo, era a primeira vez que lhe dirigia a palavra, tomou coragem, pigarreou, sorriu, tomou a mão dela e disse:

- Quero que venha assistir a missa das seis comigo.

Escrito por Mafalda e Homem-Catraca às 03h44
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Como prometi, aqui está mais um puquinho da Bahia para vocês. Pôr do sol na práia do farol é uma das rimas mais antigas da Bahia. Isto é... rima pra quem lê, poesia pra quem tem oportunidade de ver. Quem estava na Barra neste dia viu. Quem não viu perdeu (outro igual impossível), mas... a boa notícia é que amanhã tem outro. Único e incomparável... como todos os outros.







Escrito por Mafalda e Homem-Catraca às 02h56
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   Férias na Bahia



SIM SENHORES, ESTOU NA BAHIA!!!

O tempero no ar, dendê, calor, engarrafamento... O vento quente a amenizar a vontade de esquecer o resto do mundo (Quem é Romeu Queiroz mesmo? Na Bahia ninguém consegue lembrar!). A Bahia é assim, meio que...Sei lá. Os batuques incomodam, mas sem eles, já não seria o mesmo lugar. Aqui comemoramos o jeito de ser apenas isso. E o que seria isto?

Meio complicado explicar. É como assistir o tempo parar na primeira onda que vemos quebrar na orla. Tibum... E o tempo para! Simples, o tempo para e agente aproveita e comemora. Na Bahia sabe-se que certas ondas sempre arrebentam no mesmo lugar. Outras pegam agente de surprese a deixam nossas roupas de banho no calcanhar...Mas isso não é problema porque estar na Bahia é assim “sei lá”. É divagar devagar.  É uma coisa tão assim “sei lá” que dá até preguiça de explicar.

É quando escutamos alguém dizer com aquele sotaque arrastado: “Venha cá...” quando ouvimos o chacoalhar das palhas dos coqueiros ou quando assistimos a maresia embaçar o arrebol na praia de Armação... as lusinhas amarelinhas ascendendo nas vertentes da favela do Curuzú que entendemos essas coisas são mais do que se pode explicar..  Talvez seja perda de tempo. Talvez uma foto explique melhor, mesmo sem cheiro, sem vento... O azul do céu da Bahia. Talvez o azul do céu da Bahia possa falar por si só.

Em breve mais fotos da Bahia, aguardem.


 

 



Escrito por Mafalda e Homem-Catraca às 20h58
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