Penumbra, fumaça, o contraste da iluminação precária. Vários perfis, silhuetas, sorrisos, garrafas de cerveja. Música alta, cabeças a pender e balançar embaladas pela guitarra. Quando percebo que estou equilibrando o cigarro pendurado entre os lábios sei que não há mais salvação.
“...Shine on you crazy diamond...”
Nada sai do ritmo. Um bêbado se esbarra e pede desculpas. Duas loucas disputam o ventilador. Um copo se quebra no contratempo e todos urram de volta. A festa a sincopar com o balanço do meu cigarro. Pessoas a pisar no meu pé...
- Desculpe.
Não foi nada. Putz... Eu falei ou só pensei isso? Melhor encostar-me em algo... Olhando em volta achei o que não pretendia encontrar. Aqueles cabelos negros, Como em filme de suspense. A música parou. Estão trocando o CD? Lentamente aquele olhar volta-se em minha direção. Seria a cerveja? Me ferrei. Ela olhou e tudo se move em câmera lenta. Por que? Nesta escuridão... Por que justo eu? Ela ainda está olhando. Que poder embriagante! Será a música? Nem tocaram Beattles ainda...
“ I read de news today ow boy... About the lucky man how made the grade...”
CD dos Beattles! Será coincidência? Não! Está tudo errado, tudo trocado. Eu aqui deste lado, ela lá do outro lado... Tenho que tomar alguma atitude. Pegarei mais cerv... Não. Chega de cerveja. Vou ter que ajeitar tudo, ajeitar a postura, ajeitar o boné, jogar o cigarro no chão, chegar ao outro lado do salão...
“...Woke up, fellt ou the bad, dragged a comb acropss my head...”
- Oi! (putz ta apertado) oooooi... Qual teu nome? Pronto, estava feito, deixe me ver algo interessante para dizer...
- Então Ritinha... é Rita né? Pois então, eu to precisando de ajuda. Eu perdi meu juízo. Ele e dessa altura assim ó, meio magrinho, mirradinho, usa óculos e tal. Mas ele é baixinho e eu não consigo achar ele no meio desse furdunso.
Ela riu. Não sei se fui péssimo, mas ela riu. O ambiente conspira a favor.
- O que acontece se você não encontrar ele? (Boa pergunta!).
- Bom... Além de virar abóbora e ficar desajuizado...
Outro sorriso. Serão os Beattles? Maldita pergunta difícil. Será a pergunta ou o sorriso? Responde mané... Cochilou cachimbo cai!
- Sem juízo eu vou acabar me apaixonando, virar abóbora não é exatamente o meu problema...
”...In an interstellar burst...I am back to save the universe...”
Não foi preciso dizer mais nada. Radiohead é covardia. O ápice daquela loucura durou quatro minutos e quarenta e quatro segundos. Deu tudo certo: a música, a cerveja, o beijo, o juízo perdido (e quem quer encontrar o coitado?), a loucura. E foi só isso. Nada a mais, nada de mais, Não virei abóbora, nem era dela o sapatinho de cristal, nem recuperei o juízo. Putz... Pagar a conta...Vida ordinária! Na verdade o problema é a conta. A conta do bar agente pode pagar com cheque pré-datado. A da loucura agente paga com a ressaca... No dia seguinte, sem falta!
Escrito por Mafalda e Homem-Catraca às 11h12
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