Se minha consciência falasse.





De um jeito macio, mais macio que o de costume, dizia o que costumava dizer:
- Pois é... Mas é que...
E assim continuava, abria-se pra mim de maneira tão acanhada. E por mais que eu dissesse todos os palavrões... - Pois é. Mas é que... E contornava. Nunca ninguém me venceu assim...com acanhamento, com a fala mansa. Uma voz de choro também ajudava. Coisa mais meiga. E eu sentia calor na minha face. Um formigueiro nas bochechas. Uma coisa de louco! Mas me contive. De que adiantaria? Tanta vontade, tanta agonia, tanto esforço para morrer na praia. Ela nunca me salvará das ondas. Ela nunca me desejará tanto. Ela nunca se abriu comigo assim. Ela nunca gaguejou assim. Ela nunca falou tão manso... Como eu sou bobo! Maldita consciência. A cabeça a murmurar: Não vai fazer cagada... Tome tento... Tome jeito...
- Pois é... Mas, é que...
Ao contar da vida eu me debruçava sobre suas histórias. Aquela pausa na fala. Hipnotizante. De vez em quando algumas risadas. Deus! Como a voz dela fica sexy no telefone! Uma casa de cerquinha branca, assistir juntos o besteirol de domingo na TV, as calcinhas dela no banheiro, dois filhos brincando no quintal... QUE È ISSO CARA! ACORDA! Consciência maldita... no melhor do sonho...
- Pois é... Mas, é que...
E os elogios começam a surgir. Não sei receber bem esses elogios dela, nem de ninguém. Caramba, eu preciso ser o mais desagradável possível. Ela precisa me detestar. Não vou aturar esse calor na face por muito tempo. Os olhos dela, como seria mais fácil se olhando nos olhos dela... A quem eu culpo numa ora dessas. Maldito Graham Bel.
- Pois é... – mansa prosseguia aos bocadinhos.
Ela me conhece, sabe que não sou assim. Não dá pra enganar. Podia até sentir ela se ruborizar do outro lado da linha. Convidativa. E a maldita consciência: ela não te merece, ela não vale a pena, ela não te dá a mínima, ela é... Eu bem que mereço ela. Dormir sozinho nesse frio... Ela bem que merece outra chance... outra chance e algumas flores... As chaves de casa. Onde deixei as chaves? Achei! A grana? A grana ta aqui, documentos, tudo. Os cigarros... Cigarros não... ela detesta... Esses ficam.
- Pois é... Mas é que...
Eu não agüento! - Não... Faz o seguinte... Me espera. Já estou indo aí.
Consciência malcriada! Vais ficar em casa de castigo. Irei sem consciência e sem cigarros.


Escrito por Mafalda e Homem-Catraca às 23h01
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