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Meio dia. Senhor Januário Seqüé vai ao boteco ao lado do açougue onde compra charque toda semana. Com o pacote de charque já em baixo do braço, senta-se ao balcão e pede:
-Ô esse menino, trás aquela branquinha que seu pai guarda atrás da gaiola do curió. E me traga também caju pra adoçar a danada.
-É pra já Seu Seqüé. O menino com a garrafa empoeirada em uma das mãos e um prato de caju na outra atende o senhor visivelmente abatido pelo sol forte. –Sol de lascar hein Seu Seqüé?
O homem coloca o pacote de charque em cima do balcão, pega um caju, acomoda-o entre o bigode e as narinas e, fazendo bico, inspira fundo. O cheiro do caju fresco parece um alento. Expira cansado o ar do caju e prossegue: -Ta cá gota!!! Hoje na feira vi uma flor com um vestido tão curto que deixei cair meia dúzia de jiló...hehehe. O calor ta maltratando até os xique-xiques. Não vi uma rosa graxa sequer no caminho da feira pra cá. Amarrei meu jumento embaixo da algaroba da pracinha, sorte a dele que nesse sol de seca meu ganha pão é pouco e minha feira é leve.
-Tá velho, mas não ta morto hein Seu Seqüé?!
-Ô seu moleque!!! Tô vivo e sã pra te dar uns catiripapos. Vê se cria leite nos ovos e vá chamar seu pai que eu quero dois dedinhos de prosa com ele.
O menino franze a boca e, arrastando os chinelos de couro, volta para chamar o pai.
Seqüé retira o copo de pinga servido até a borda cuidadosamente do balcão, derrama um pouco ao lado do pé e, com um só gole, reserva toda pinga do copo na boca. Franzindo a testa, morde o caju para que as fibras doces desçam com a cachaça.
O dono do bar chega ao balcão, camisa aberta, pano de prato no ombro, vasilha d’água do curió entre os dedos:
-Como vai Seu Seqüé?
-Bem... bem melhor, depois dessa pinga com caju.
Que disse-me-disse foi esse que o senhor teve com meu filho?
- Disse-me-disse não! Disse pra ele me respeitar. Veja o senhor que o danado me chamou de velho. Contei uma peraltice que fiz com uma florzinha linda maltratada pelo calor da feira e o menino me insinua que sou incapaz de paquerar a coitadinha.
-Deixe de pompa Seu Seqüé. De história o senhor é cheio. Vive dizendo que no arrasta-pé de Seu Tonho dança com as cabritinhas, coisa que nunca vi. Mas... me conte, essa flor tinha nome? Como era ela?
-Até o senhor?! Duvidando de mim?! Pois vou te dar os detalhes. Bem do lado da barraca de comadre Jenoveva eu senti aquele cheiro doce. Olhei pro lado e só vi ela. Cestinha na mão apoiada no joelho pra aliviar o peso... vestido curto de chita estampadinho, todo floridinho, parecia um flamboian vermelho. Cabelo preto e liso que nem índia. Perguntou o preço do jiló, olhou pra mim, deu um sorriso e foi-se embora sestrosa, perfumando a feira.
-Ai o senhor me derruba meia dúzia de jiló pra olhar as intimidades da moça? hahhahah
-Oxi! seu filho lhe contô foi?
-Não Seu Seqüé, eu estava ouvindo lá da cozinha. Coisa mais feia senhor Januário Seqüé... mas continue, o sinhô falou com a moça?
-Falei não, mas se topar com ela de novo, chamo logo pra dar uma umbigada mais eu lá na minha rocinha.
-Seu Seque, seu Seqüé... cuidado que sua fama pode mudar de mentiroso pra homi frouxo.
-O compadre faça o favor de me servir mais uma e não duvidar de minha pessoa.
De pano de prato ainda no ombro, José, dono do boteco, serve-lhe outra dose enquanto diz:
Escrito por Mafalda e Homem-Catraca às 04h30
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