Pássaros
De vez em quando tenho vontade de voar. A “vontade de voar”, segundo a lógica barata da psicanálise, explica muitas coisas da natureza humana. Explica porque queremos parar como beija-flor na janela da vizinha. Explica a vontade de fugir de um engarrafamento, ou até mesmo de defecar na cabeça de alguém com quem não vamos com a cara (antipatia gratuita... isto a psicanálise não explica). Mas...porque não voamos? Só porque nós, homo-sapiens, não temos assas?
Temos um cérebro maravilhoso. Capaz de auto analisar-se com baboseiras psicanalíticas. Temos cordas vocais para alcançar notas musicais diversas e dizer as maiores besteiras do mundo (em “trocentas” línguas diferentes). E o polegar opositor...(quem lembra do documentário da Ilha das Flores?). Nada disto serve para voar, grande e tolo bípede. Olhe para cima e morra de inveja.
Passaremos a vida toda a observar. Mesmo construindo maquinas para voar, nunca saberemos como é “sentir-se em casa” no topo do mundo. O homo-sapiens não é pesado demais, nem inteligente de menos para voar, apenas não voa. È preciso “ser” pássaro para voar. O pássaro abre as asas e salta. Elegante rumo ao ar, nada o sustenta, exceto o ar. Inatingível, simplesmente salta e não cai. Acha óbvio demais? Não vê nada de especial nisto que falei? Por que você não tenta? De apara-quedas não vale. O máximo que pode conseguir é colocar um cocar na testa e engabelar os outros.
E mesmo que você tivesse asas de mamífero, sobrariam ao homo-sapiens o peso de âncora da ganância e o lastro da culpa, que a psicanálise barata custa a tirar.
Escrito por Mafalda e Homem-Catraca às 23h31
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