UMA HISTORINHA
METADE
O centauro, o último da sua espécie, é cavalo e homem, é força e sensibilidade, perseguido pelos homens. Caminhava louco pelas florestas a cantar. Recitava:
- O fruto espúrio reluz à sombra dos sub-humanos e linchadores.
A terra verde a inspirar-lhe, o vento a exalar seus azuis, e o centauro a caminhar e cantar.
Caminhar e beber. Apenas porque era líquido. E na terra caminhava porque firme, sobre ela podia cantar. Simplesmente porque tinha voz. Balbuciava louco.
-Quíron, meu bom amigo, bebe comigo quando anoitecer? Quando Baco deixar-me ver-te à noite, contarei daquela humana louca que me queria.
Ninguém escutava, nem as ninfas da floresta. O vinho na mão embelezava o tom do entardecer rosado da Tárcia. Se ele era o sub-humano, quem seriam os linchadores? Esquecera. A terra girava mais que o de costume. Gargalhava:
- Aliás...hic... (soluçava). -Atlas! Não me deixes cair esta abóbada. Ela está linda hoje. Eu matei o único que poderia segurá-la para ti!
Gargalhava. Na subida de um penhasco não muito íngreme, num acesso de raiva, desferiu um coice no ar. Tivera muito tempo para aprender moderar a impaciência animal. Meditava, desabafava, escrevia seus alentos na areia molhada. Mas geralmente bebia. A cântaros. Enormes cântaros de barro, todos quebrados no rastro do caminho.
Bêbado, subiu o penhasco. Indiferente lançou a garrafa de vinho no ar. Os olhos acompanhando-a cair girando. Num só estalo o vermelho borrou o chão não muito distante ... como sangue.
-A ti Demeter, que zombaste de mim e não me proveu uma companheira.
Ofereceu vinho pois não tinha azeite ou leite. No topo do penhasco, em frente ao sol poente sobre o mar, buscou seu arco. Sacou uma flecha da aljava. Mirou em direção ao sol. Estava amortecido pelo álcool mas apto a atirar e com a precisão de um mestre. Só um pouco iludido pela embriagueis, pois pretendia acertar o próprio astro.
Mas desistiu. Deu as costas, abanou o rabo, iniciou a descida em meia volta e, na desistência da cura de seus males, resmungou:
-Deuses...hun. Deles não podemos fugir. E sem eles, a quem poderíamos culpar?
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Escrito por Mafalda e Homem-Catraca às 08h54
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